Fiscalização de Posturas e o Manicômio Fiscal

Fiscalização de Posturas e o Manicômio Fiscal

Cenário: Gabinete do Procurador da Câmara Municipal do Município de Vaiquemquer. Personagens: Procurador e Vereador recém-empossado.

Sobe o pano.
Vereador – Bom dia, doutor! Eu preparei um projeto de lei e queria mostrar ao senhor.
Procurador – Pois não, vereador. Qual é o tema do projeto?
Vereador – É uma lei que proíbe o uso de piercing nas partes íntimas das pessoas. O senhor não acha isso uma aberração?
Procurador – Meu vereador, eu não acho nada, minha função é apenas analisar os aspectos jurídicos…
Vereador – Eu escrevi aqui (lendo): “Fica proibida a aplicação de piercing nas partes íntimas das pessoas”. Está bom?
Procurador – A lei é só isso?
Vereador – Ah, tem o outro artigo (lendo): “Revogam-se as disposições em contrário”. Está bom?
Procurador – O senhor tem que definir algumas coisas… Por exemplo, o que se entende como partes íntimas?
Vereador – Ora, todo mundo sabe quais são as partes íntimas…
Procurador – Depende da visão de cada um… Por exemplo, bico de peito é parte íntima?
Vereador – Ah é sim! Intimíssima!!
Procurador – E bico de peito de homem, também é parte íntima?
Vereador – Bem… De homem, não, só de mulher…
Procurador – As mulheres não vão achar que isso é discriminação?
Vereador – Huum… É verdade… Está certo, peito de homem também não pode.
Procurador – E piercing na língua? Pode?
Vereador – Na língua? Que coisa horrível! Também não pode!
Procurador – Mas a língua é parte íntima?
Vereador – Intimíssima!! A língua tem que ficar escondida na boca…
Procurador – E umbigo? É parte íntima?
Vereador – Intimíssima!! No umbigo também não pode.
Procurador – Outra coisa, a lei tem que definir o que é piercing…
Vereador – Todo mundo sabe o que é piercing… Diz que é uma espécie de brinco preso na pele.
Procurador – Tudo bem, eu dou um jeito… E qual vai ser a sanção?
Vereador – Nem Sansão nem Dalila, a lei vale pra todo mundo!
Procurador – Desculpe, eu quis dizer qual vai ser a multa?
Vereador – E precisa dizer isso?
Procurador – Ora, se alguém for apanhado desobedecendo à lei, qual vai ser a punição?
Vereador – Vai preso!!
Procurador – Meu vereador, nós não somos polícia para prender alguém. Temos apenas que multar…
Vereador – Há controvérsia, não há? Eu ouvi dizer que a Prefeitura tem poder de polícia…
Procurador – Polícia administrativa e não polícia judiciária.
Vereador – Bem… O senhor é que entende disso… O senhor põe aí a multa que achar melhor…
Procurador – Está certo… Vou pensar… E quem vai fiscalizar?
Vereador – Ora… A Postura, não é isso?
Procurador – Pode ser a fiscalização de posturas como pode ser a Vigilância Sanitária.
Vereador – Boa ideia! Acho melhor a Vigilância Sanitária! Esse negócio de piercing pode dar infecção, é problema de saúde!
Procurador – Me diz uma coisa, como é que a Vigilância Sanitária vai fiscalizar se alguém está usando piercing na parte íntima?
Vereador – Ora, fiscalizando esses aplicadores de piercing, pegando de surpresa…
Procurador – Está bom, está bom… Eu dou um jeito… Só isso, meu Vereador?
Vereador – Ah não! Eu tenho outro projeto de lei!
Procurador – (Meu Deus!)
Vereador – O senhor disse alguma coisa?
Procurador – Não, eu quero saber qual é o tema desse outro projeto?
Vereador – É uma lei que proíbe tirar meleca na área pública!
Desce o pano.

Fonte: Roberto Tauil, Manicômio Fiscal XIV em http://goo.gl/5ymfR

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