Quem teve o bônus que assuma o ônus

16/12/2014 - Quem teve o bônus

Empreendedores Individuais e Microempresas são estruturas econômicas simples, com reduzido quadro de empregados.Considerados em conjunto, os empreendedores individuais e as microempresas têm números relevantes para economia nacional. Nascem, mas morrem ainda infantes. Uma das causas apontadas para a o fracasso destes empreendimentos é a ausência de planejamento na produção de bens e serviços.O mercado de produção de bens e serviços é competitivo. Não é suficiente reunir capital e trabalho para produzir, há que haver administração eficiente para que os recursos sejam empregados de modo eficaz.É secular a dedicação do conhecimento científico à administração de empreendimentos, desenvolvendo inúmeras e intrincadas técnicas e metodologias, com o objetivo de aperfeiçoar os processos de produção de bens e serviços para diminuir custos e melhorar a qualidade.

Ressalte-se que, historicamente, o escopo para o abandono do empirismo é o viés econômico. Sem pejo, pode-se afirmar que a notória evolução da proteção à saúde do trabalhador nos últimos cinquenta anos deve-se menos à questão humanitária e mais a este viés econômico.

Desde que se iniciaram as pesquisas científicas provando-se o nexo causal entre trabalho e saúde do trabalhador, passou-se a incluir numa administração eficiente a minimização dos riscos ambientais.

Diante disto, nas décadas de 50 e 60, o mundo, leia-se governos ocidentais, tinha um controle mínimo dos riscos ambientais, quase sempre intramuros e por força da incipiente legislação trabalhista (empregado afastado, maior custo econômico).

Assim, como regra geral, não se analisava o impacto ambiental causado pelos processos de produção de bens e serviços. Os riscos ambientais extramuros nem eram considerados na administração de empreendimentos. Sem nada ou quase nada de punição com reflexo econômico, era livre a diluição de resíduos nas águas e a dispersão de resíduos no ar.

Em decorrência, nas décadas de 70 e 80, tinha-se como inevitável a geração de resíduos no final do processo de produção de bens e serviços em massa (fim de tubo). Se havia responsabilidade na geração de resíduos, e a legislação dizia que existia, ela era exclusivamente do empresário, doravante obrigado a licenciar suas atividades junto aos órgãos governamentais, assumindo o impacto ambiental que causavam, quando e se chamados a responder.

Posteriormente, na década de 90, o mundo começa a se reconhecer como verdadeira e digitalmente uma grande aldeia global, cujos habitantes consomem de tudo e muito. O mote é atender à demanda e criar mais demanda. Consome-se como nunca dantes. Efemeridade e obsolescência dos produtos versus processo produtivo massificado e acelerado, a equação é desfavorável ao nosso habitat, planeta azul.

A galope do consumo desenfreado, o mundo ocidental se vê às voltas com o crescimento dos investimentos públicos na reparação dos estragos causados às águas e ao ar pela produção de bens e serviços em massa. Governos são chamados à cena para arcar com a minimização dos danos ambientais.

Contudo, o custo dos investimentos públicos na reparação dos danos ambientais é alto e tende a aumentar, já que o consumo não diminui. E, como o Governo não cria, se apropria dos dinheiros dos governados, maiores investimentos indicam que o ônus da reparação ambiental é socializado entre os consumidores e não consumidores, enquanto o bônus da produção é capitalizado pelo produtor poluidor.

Sendo assim, impõe-se nova regra geral, pelo princípio da prevenção e via legislação: cada qual que arque com as despesas da destinação dos resíduos gerados na sua própria atividade (quem teve o bônus, que assuma o ônus).

Ora, para o empreendedor, a assunção deste ônus (o da destinação dos resíduos gerados por sua atividade) reduz o capital. Se sobrou, é porque saiu do capital e não retornou a ele. A sobra (resíduos) deve, portanto, ser evitada. A estratégia de final de tubo, traduzida em “o que fazer com os resíduos?”, está com seus dias contados.

É claro que o viés econômico vai acabar por ditar o rearranjo para que a administração do empreendimento volte a ser eficiente. O caminho será, daqui por diante, “o que fazer para não gerar resíduos?”.

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